quarta-feira, 2 de junho de 2010

Choveu ontem

Fazia um tempo que não ouvia aquela canção. Coloquei o cd pra tocar, "escolhi" a numero nove, deitei e fechei os olhos. Em minha mente antes da música começar eu já a dedilhava por inteiro, meus dedos como se quisessem tocar o instrumento passeavam na lisa camada de cetim da almofada. Nas primeiras notas meus olhos num segundo demorado fecharam-se e involuntariamente meu corpo exprimiu um suspiro. Minha mente ocupava um espaço vago, uma inércia consideravelmente estável, e naquele momento não havia preocupações. Os ruidos ficaram distantes, a melodia era o único som na sala. Deixei levar-me por toda grandeza da letra, e a cada verso um arrepio, e a cada arrepio uma lágrima. Não era tristeza, e se você pudesse ver-me ali, você saberia. A música tocava e tocava, infinitamente linda. Meus ouvidos não cansavam de escutar as mesmas palavras. ("Some days the clouds paint the sky all gray, and it takes away my summertime. Somehow the sun keeps shining upon you".) A melodia parecia envolver-me, ela rodiava meu corpo, criava uma atmosfera ao meu redor, como um campo magnético, atraia-me, aperteva-se, abraçava-me, entrelaçava-me entre suas notas. Tão maravilhosamente, eu me sentia aquecida, meu coração ardia e meus olhos transbordavam. ("If there's a light in everybody, send out your ray of sunshine".) Mas uma sensação estranha acompanhada de um desconforto no estômago quase me fizeram levantar e desligar o som. Não queria sentir tristeza, culpa, dor. E não estava sentindo. O estranhamento era outra coisa, o desconforto era bom dessa vez. Um enjoô, um frio na barriga, uma vertigem. A cabeça girando e o coração acelerado. Se fosse a um tempo atrás cada palavra cantada seria como uma estaca contra meu peito, seria como espinho no meu coração, seria como respirar debaixo d'agua: impossivel. E ouvi-lá naquele instante e perceber que nem a dor, nem o aperto no coração, nem a culpa e nem a tristeza me fizeram desabar foi a melhor das sensações. Sentir-se forte depois de uma grande queda é grandiosamente satisfatório e reconfortante. (E pra sempre você vai estar aqui, mas não mais em mim. Você foi parte de mim, você não é mais. Agora eu sei respirar sem o teu ar, agora eu sei enxergar sem os teus olhos, agora eu sei viver sem você. Agora eu ouço as nossas músicas e percebo que não dói mais, elas são só minhas agora. Nossas promessas já estão no passado, elas vão ser eternas, mas não mais em mim, elas serão apenas eternas. Todo o bem, todo o mal, cada sorriso e cada lágrima, nada mais nos pertence, nada mais me pertence. Está tudo no passado e o passado é só lembrança. Você está comigo e eu vou te levar pra sempre, mas não mais em mim, não existe mais nada seu em mim). A música continuava tocando e meus pensamentos fluindo como se você estivesse na minha frente e como se eu estivesse verbalizando-os. ("Perfeita simetria da vida. Tudo o que você faz, um dia volta para você”. Você voltou, e estava de passagem. Sempre esteve de passagem, meu capitulo mais lindo de amor, páginas e páginas de história, encontros, desencontros.) Um ruido forte tirou-me dos meus desvaneios. Olhei pela janela e enxergava apenas a torrente chuva caindo e inundando o meu gramado. Chovia forte, muito forte e eu fascinada admirava e contemplava: maravilhosamente, majestosamente a chuva caia e lavava o céu. Lavava minha alma e me tirava da cabeça qualquer pensamento que até então sustentava. Meu coração se sentiu inteiro, forte, depois de tanto tempo, depois de tanta dor, depois de tantas lágrimas, depois de tanto querer você. Chovia, chovia, chovia, fazia um frio bom, e aquilo era tudo. A música se misturava com as rajadas de vento e os estrondos dos trovões, maravilhosa sintonia entre a arte humana e a arte divina. E naquele momento não havia vazio. Eu respirava e sorria, eu não sentia o ar carregado, eu não sentia mais sua presença. Era eu, a música e a chuva. (Você não tem ideia do que é olhar para dentro de si e ver que não existe mais a dor, ver que não te machuca mais escutar aquela canção especial, que não te faz mal o simples fato de lembrar do teu rosto, do teu sorriso. Você não tem ideia do que é se sentir viva novamente, sentir o coração pulsando de novo por amor e meu querido não entenda errado, estou apaixonada pela vida, pelos sorrisos, pelos abraços, pelas pessoas, pelo bem, pelo o bom, não por você, não mais por você) Sem me dar conta de ter dormido, acordei de manhã com os poucos raios de luz que vinham da janela. Um céu nublado, discretamente iluminado. A música ainda tocava, meu coração ainda batia forte, você não estava aqui, e eu estava inteira. Choveu ontem.


Ponto de Vista.

Eu tenho tanta coisa para te falar. Tenho tanta vontade de te abraçar e sentir você mais perto. E isso é tão egoísta. São perspectivas tão desiguais. Porque cada gesto tem dois significados, cada olhar tem duas interpretações; as palavras embora sejam as mesmas, soam tão diferentes para nós dois. (E se eu conseguisse causar metade das maravilhas que você causa em mim, talvez isso fizesse eu me sentir um pouco menos egoísta.) Eu preciso tanto desse carinho, você alimenta minha alma, sustenta meu sorriso, faz arder meu coração. Mas eu significo muita mais para você do que você para mim. Como pode ser isso? Desse jeito tão complicado? Como pode existir jeitos tão diferentes de gostar: não podia ser tudo amor? Não podia ser tudo simplesmente afeto?

(mas eu estou tão acostumada a ser egoísta, eu quero a sua luz porque eu sou só escuridão)